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Ponto de inflexão no mercado de prata: o avanço rumo à escassez de ativos físicos não para, pelo contrário, acelera
Em meados de dezembro, o que mais chamou a atenção no mercado de metais preciosos não foi o ouro, mas a prata. Em poucas semanas, atingiu preços históricos, passando de cerca de 40 dólares para mais de 60 dólares, sem dar espaço para os participantes do mercado respirarem. Em 12 de dezembro, o preço à vista da prata atingiu um recorde de 64,28 dólares por onça, antes de cair abruptamente. Desde o início do ano, a valorização da prata quase atingiu 110%, muito acima dos 60% do ouro. À primeira vista, parece uma valorização racional, mas por trás dela esconde-se o risco de colapso de todo o sistema de mercado.
Por que a prata está a subir rapidamente — razões básicas e problemas estruturais ocultos
A razão para a subida da prata pode ser explicada superficialmente. As expectativas de redução de taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed) ativaram todo o mercado de metais preciosos, com a prata, mais volátil, reagindo de forma mais sensível do que o ouro. Simultaneamente, o crescimento acelerado de indústrias emergentes como energia solar, veículos elétricos, centros de dados e infraestrutura de IA tem aumentado a demanda por prata como metal industrial. Além disso, a produção de minas principais no México e no Peru ficou abaixo do esperado, e os estoques globais continuam a diminuir, acelerando o cenário de escassez de prata.
Porém, o verdadeiro problema reside na vulnerabilidade estrutural fundamental da prata, que difere do ouro. Os bancos centrais mundiais continuam a comprar mais de 2.300 toneladas de ouro nos últimos três anos, mas suas reservas oficiais de prata são quase nulas. Enquanto o volume diário de negociação de ouro é de cerca de 150 bilhões de dólares, o de prata é de apenas 5 bilhões. A liquidez do mercado é extremamente insuficiente, e uma entrada massiva de capital pode fazer os preços dispararem de forma repentina.
O mais perigoso é que grande parte do mercado de prata não é composta por prata física, mas por “prata de papel” — derivativos, contratos futuros e ETFs. Águas rasas podem facilmente virar maré, e uma entrada de fundos pode desestabilizar todo o mercado em um instante.
Descompasso entre mercado de futuros e mercado à vista: o início do colapso da confiança
Normalmente, o preço à vista da prata é ligeiramente superior ao preço dos contratos futuros, devido aos custos de armazenamento e seguro, chamado de “prêmio de liquidação”. Mas, desde o terceiro trimestre, essa lógica se inverteu. Os preços futuros passaram a superar os preços à vista, com a diferença aumentando continuamente.
Isso indica um sinal de alerta: o mercado está excessivamente otimista em relação aos futuros ou alguém está dominando o mercado. Acredita-se que fundos estejam impulsionando os preços futuros para cima.
Outro fenômeno preocupante é a anormalidade no mercado de entrega física. Na maior bolsa de metais preciosos do mundo, a COMEX (Nova York), normalmente 98% dos contratos futuros são liquidados em dólares ou renovados. Mas, nos últimos meses, a quantidade de prata física entregue aumentou rapidamente, com investidores perdendo a confiança na “prata de papel” e exigindo a entrega de prata física. O mesmo ocorre com os ETFs de prata, que estão enfrentando dificuldades com suas reservas físicas.
Nos principais mercados, como a COMEX, LBMA em Londres e a Bolsa de Metais de Xangai, há uma corrida por prata. As reservas na Bolsa de Xangai caíram para 715,875 toneladas até o final de novembro, o menor nível desde julho de 2016. As reservas na CME também despencaram de 16.500 toneladas em início de outubro para 14.100 toneladas.
A razão é simples: quando as taxas de juros do dólar caem, há uma preferência por evitar pagamentos em dólares. Além disso, há uma preocupação oculta de que as bolsas podem não possuir prata suficiente para cumprir suas obrigações.
O destino do mercado de prata sob controle do JP Morgan: o “guardião” da prata
Para entender os problemas estruturais do mercado de prata, não se pode deixar de mencionar o papel do JP Morgan Chase. O banco é um dos principais players globais nesse mercado.
De 2008 a 2016, o JP Morgan manipulou os preços do ouro e da prata no mercado de futuros, através de operações de grande volume que criavam uma falsa impressão de oferta e demanda, induzindo outros traders. Depois, cancelava as ordens no último momento para obter lucros — uma prática conhecida como “spoofing”. Por esse motivo, em 2020, o banco foi multado em 920 milhões de dólares pela CFTC.
Porém, a verdadeira astúcia não estava aí. O banco, ao mesmo tempo que pressionava os preços da prata por meio de vendas a descoberto, acumulava uma enorme quantidade de prata física a preços baixos, que comprava enquanto manipulava o mercado. Desde 2011, quando a prata rondava os 50 dólares, o JP Morgan aumentou suas reservas na COMEX, chegando a deter cerca de 50% de todo o estoque de prata na bolsa.
Hoje, o JP Morgan possui aproximadamente 196 milhões de onças de prata na COMEX, representando cerca de 43% do estoque total. Além disso, é o custodiante do ETF Silver (SLV), gerenciando 517 milhões de onças (cerca de 321 bilhões de dólares) de prata. O mais importante: controla mais de 50% do mercado de prata “qualificada” (prata disponível para entrega, mas não registrada oficialmente).
A essência do jogo no mercado de prata está em quem consegue produzir prata física e permitir sua entrada no pool de entrega. O JP Morgan Chase transformou-se de um “especulador vendedor a descoberto” em um “guardião da prata”. A prata registrada para entrega corresponde a apenas cerca de 30% do estoque total, e a maior parte da prata qualificada está concentrada em poucos investidores institucionais. Assim, a estabilidade do mercado de futuros de prata depende, na prática, das ações de um número muito limitado de players.
O fim do sistema de papel: a mudança silenciosa para ativos físicos
Resumindo, o mercado de prata atual é assim: o mercado está em movimento, mas as regras mudaram.
A confiança no sistema de “negociação de prata no papel” está se desintegrando de forma irreversível. Uma onça de prata física pode equivaler a mais de 12 tipos de warrants, e a prata real é repetidamente colocada como garantia, emprestada e usada em derivativos ao redor do mundo. Embora funcione normalmente, em momentos de demanda por entrega física, pode gerar uma crise de liquidez.
Em 28 de novembro, a CME sofreu uma parada de aproximadamente 11 horas devido a problemas de resfriamento de seus data centers, interrompendo as negociações de ouro e prata na COMEX. Essa interrupção ocorreu logo após a prata atingir seu recorde histórico, levando a especulações de que teria sido uma medida para proteger os operadores de mercado mais expostos ao risco.
Hoje, o mercado de ouro também passa por mudanças semelhantes. Os estoques de ouro na NYMEX continuam a diminuir, com registros frequentes de mínimos históricos de ouro registrado.
Da liquidez à certeza: a luta pelo novo poder de definição de preços
Globalmente, o capital está se movendo silenciosamente.
Nos últimos dez anos, as principais estratégias de alocação de ativos tornaram-se altamente financeirizadas, com ETFs, derivativos e produtos estruturados “securitizando” tudo. Mas agora, cada vez mais fundos estão saindo de ativos financeiros tradicionais e migrando para ativos físicos, como ouro e prata, que não dependem de intermediários financeiros ou garantias de crédito.
Os bancos centrais, quase sem exceções, continuam a aumentar significativamente suas reservas físicas de ouro. Rússia proibiu exportações de ouro, e países ocidentais como Alemanha e Holanda estão solicitando o retorno de suas reservas de ouro mantidas no exterior.
Segundo a Bloomberg, o ouro está se deslocando do Ocidente para o Oriente. Desde o final de abril, mais de 527 toneladas de ouro saíram de mercados como Nova York e Londres, enquanto as importações de ouro na Ásia, incluindo a China, aumentaram. Até novembro, o JP Morgan transferiu sua equipe de negociação de metais preciosos dos EUA para Cingapura.
O cerne dessa movimentação é uma nova luta pelo controle do preço, em uma era de dólar fraco e desglobalização. A valorização do ouro e da prata parece refletir uma volta ao padrão-ouro. Embora possa não ser uma realidade imediata, uma coisa é certa: quem controlar mais ativos físicos terá maior poder de definir preços.
Quando a música parar, só quem possuir ativos reais estará seguro para sentar.