Quando a economia colapsa e a moeda perde valor, um grupo de jogadores de jogos na Venezuela encontrou uma fonte de subsistência surpreendente no mundo virtual de RuneScape. Eles acenaram para as indústrias tradicionais, e depois acenaram também para o mundo do jogo. Esta não é apenas uma história sobre gaming, mas sobre como as pessoas encontram formas de sobreviver em tempos de crise.
Subsistência no mundo virtual: Quando o ouro do OSRS vale mais que o Bolivar
A Venezuela já foi um dos países mais ricos da América do Sul, graças ao petróleo abundante. No entanto, a partir de 2013, esta economia começou a declinar de uma forma sem precedentes na história moderna. Entre 2013 e 2021, o PIB da Venezuela caiu entre 75-80%, a mais dramática crise econômica dos últimos 45 anos, sem guerra, superando a Grande Depressão dos EUA e o colapso da União Soviética.
Dados até 2021 mostram que 95% da população venezuelana vive abaixo da linha da pobreza, sendo que 77% estão em situação de pobreza extrema. A inflação anual em agosto de 2018 ultrapassou 48.000%, indicando que a unidade monetária, o Bolivar, estava rapidamente perdendo valor. Em 4 meses, a taxa de câmbio no mercado negro caiu de 1 milhão de Bolivares por 1 USD para cerca de 7 milhões de Bolivares por 1 USD.
Foi nesse momento que os venezuelanos descobriram o Old School RuneScape (OSRS) — uma versão clássica do RuneScape lançada em 2013. Curiosamente, a taxa de câmbio da moeda virtual “ouro do OSRS” em relação ao USD fica entre 1-1,25 milhão de ouro por 1 USD — mais estável e valiosa do que o Bolivar enfraquecido. ORS só exige configurações modestas de computador, podendo rodar no navegador, permitindo que milhões de venezuelanos, incluindo crianças usando os antigos computadores Canaima (distribuídos gratuitamente pelo governo em 2010 para estudantes), participem.
Desde pelo menos 2017, os jogadores venezuelanos começaram a usar o OSRS para ganhar a vida. Uma comunidade famosa se formou na região leste do mapa do jogo, onde aparece o dragão azul. Milhares de venezuelanos se reúnem lá, repetindo a tarefa de matar dragões, coletar ossos e escamas de dragão para vender por ouro do jogo, e depois trocar por Bitcoin ou outras criptomoedas para sacar dinheiro.
Segundo dados da comunidade, matar o Dragão Azul por uma hora pode render cerca de 500.000 de ouro do OSRS, equivalente a 0,5 USD. Jogadores de alto nível, caçando chefes como Zurlah, podem ganhar entre 2-3 USD por hora — salários superiores à maioria dos venezuelanos com diploma universitário. Muitos entrevistados para a imprensa internacional afirmam ganhar mais de 100 USD por mês com o OSRS, enquanto seus pais ganham cerca de 10 USD por mês.
Do Dragão Azul ao bot: Por que os farmadores de ouro precisam parar
A comunidade de jogadores tem uma postura complexa em relação aos farmadores de ouro venezuelanos. Por um lado, eles são jogadores de verdade, não fábricas de farming em grande escala, jogando de forma justa como qualquer outro, apenas tentando sobreviver. Alguns jogadores de entretenimento até acham que a presença de trabalhadores automatizados melhora a experiência, sem gastar muito dinheiro.
Por outro lado, a atividade de farming certamente afeta a economia do jogo. O maior impacto vem do surgimento de bots — programas automáticos que operam 24/7 sem descanso. Os bots começaram a competir a partir de 2023, fazendo a produção de ouro do OSRS disparar e os preços caírem continuamente. A taxa de troca do ouro do OSRS atualmente está em torno de 1 milhão de ouro por 0,16-0,2 USD, uma queda de mais de 60% em relação ao pico.
Os computadores Canaima, já ultrapassados, não conseguem mais ajudar os venezuelanos a manterem suas subsistências no mundo do jogo, à medida que bots mais poderosos dominam o mercado. Os jogadores venezuelanos começaram a migrar para outras plataformas: Tibia, Albion Online, World of Warcraft — buscando novas oportunidades de ganhar dinheiro no mundo virtual.
7,9 milhões de pessoas acenam adeus: Quando a batalha migra do jogo para a realidade
Nem todos optam por continuar jogando. Alguns decidem deixar esses mundos virtuais, e até abandonar o país. Segundo dados do início deste ano, cerca de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país, um número que representa uma das maiores crises de refugiados na história da América Latina.
A sobrevivência através do jogo já não é suficiente. Aqueles que antes ganhavam com ouro virtual agora precisam buscar oportunidades reais em outros lugares. José Ricardo, um intermediário na compra e venda de ouro do OSRS, também reconhece que o mundo virtual é apenas temporário.
A história dos venezuelanos em RuneScape não é apenas de sucesso ou fracasso. É uma narrativa sobre como as pessoas acenam para oportunidades que parecem duradouras, como aprendem a se adaptar quando o sistema desaba, e, por fim, como precisam se despedir de uma nação. Entre os números — PIB em queda, taxas de inflação, quantidade de jogadores, migração populacional — há histórias vívidas de resistência, resiliência e escolhas difíceis em tempos de crise econômica.
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Acenar de RuneScape: A história de sobrevivência e fuga dos venezuelanos
Quando a economia colapsa e a moeda perde valor, um grupo de jogadores de jogos na Venezuela encontrou uma fonte de subsistência surpreendente no mundo virtual de RuneScape. Eles acenaram para as indústrias tradicionais, e depois acenaram também para o mundo do jogo. Esta não é apenas uma história sobre gaming, mas sobre como as pessoas encontram formas de sobreviver em tempos de crise.
Subsistência no mundo virtual: Quando o ouro do OSRS vale mais que o Bolivar
A Venezuela já foi um dos países mais ricos da América do Sul, graças ao petróleo abundante. No entanto, a partir de 2013, esta economia começou a declinar de uma forma sem precedentes na história moderna. Entre 2013 e 2021, o PIB da Venezuela caiu entre 75-80%, a mais dramática crise econômica dos últimos 45 anos, sem guerra, superando a Grande Depressão dos EUA e o colapso da União Soviética.
Dados até 2021 mostram que 95% da população venezuelana vive abaixo da linha da pobreza, sendo que 77% estão em situação de pobreza extrema. A inflação anual em agosto de 2018 ultrapassou 48.000%, indicando que a unidade monetária, o Bolivar, estava rapidamente perdendo valor. Em 4 meses, a taxa de câmbio no mercado negro caiu de 1 milhão de Bolivares por 1 USD para cerca de 7 milhões de Bolivares por 1 USD.
Foi nesse momento que os venezuelanos descobriram o Old School RuneScape (OSRS) — uma versão clássica do RuneScape lançada em 2013. Curiosamente, a taxa de câmbio da moeda virtual “ouro do OSRS” em relação ao USD fica entre 1-1,25 milhão de ouro por 1 USD — mais estável e valiosa do que o Bolivar enfraquecido. ORS só exige configurações modestas de computador, podendo rodar no navegador, permitindo que milhões de venezuelanos, incluindo crianças usando os antigos computadores Canaima (distribuídos gratuitamente pelo governo em 2010 para estudantes), participem.
Desde pelo menos 2017, os jogadores venezuelanos começaram a usar o OSRS para ganhar a vida. Uma comunidade famosa se formou na região leste do mapa do jogo, onde aparece o dragão azul. Milhares de venezuelanos se reúnem lá, repetindo a tarefa de matar dragões, coletar ossos e escamas de dragão para vender por ouro do jogo, e depois trocar por Bitcoin ou outras criptomoedas para sacar dinheiro.
Segundo dados da comunidade, matar o Dragão Azul por uma hora pode render cerca de 500.000 de ouro do OSRS, equivalente a 0,5 USD. Jogadores de alto nível, caçando chefes como Zurlah, podem ganhar entre 2-3 USD por hora — salários superiores à maioria dos venezuelanos com diploma universitário. Muitos entrevistados para a imprensa internacional afirmam ganhar mais de 100 USD por mês com o OSRS, enquanto seus pais ganham cerca de 10 USD por mês.
Do Dragão Azul ao bot: Por que os farmadores de ouro precisam parar
A comunidade de jogadores tem uma postura complexa em relação aos farmadores de ouro venezuelanos. Por um lado, eles são jogadores de verdade, não fábricas de farming em grande escala, jogando de forma justa como qualquer outro, apenas tentando sobreviver. Alguns jogadores de entretenimento até acham que a presença de trabalhadores automatizados melhora a experiência, sem gastar muito dinheiro.
Por outro lado, a atividade de farming certamente afeta a economia do jogo. O maior impacto vem do surgimento de bots — programas automáticos que operam 24/7 sem descanso. Os bots começaram a competir a partir de 2023, fazendo a produção de ouro do OSRS disparar e os preços caírem continuamente. A taxa de troca do ouro do OSRS atualmente está em torno de 1 milhão de ouro por 0,16-0,2 USD, uma queda de mais de 60% em relação ao pico.
Os computadores Canaima, já ultrapassados, não conseguem mais ajudar os venezuelanos a manterem suas subsistências no mundo do jogo, à medida que bots mais poderosos dominam o mercado. Os jogadores venezuelanos começaram a migrar para outras plataformas: Tibia, Albion Online, World of Warcraft — buscando novas oportunidades de ganhar dinheiro no mundo virtual.
7,9 milhões de pessoas acenam adeus: Quando a batalha migra do jogo para a realidade
Nem todos optam por continuar jogando. Alguns decidem deixar esses mundos virtuais, e até abandonar o país. Segundo dados do início deste ano, cerca de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país, um número que representa uma das maiores crises de refugiados na história da América Latina.
A sobrevivência através do jogo já não é suficiente. Aqueles que antes ganhavam com ouro virtual agora precisam buscar oportunidades reais em outros lugares. José Ricardo, um intermediário na compra e venda de ouro do OSRS, também reconhece que o mundo virtual é apenas temporário.
A história dos venezuelanos em RuneScape não é apenas de sucesso ou fracasso. É uma narrativa sobre como as pessoas acenam para oportunidades que parecem duradouras, como aprendem a se adaptar quando o sistema desaba, e, por fim, como precisam se despedir de uma nação. Entre os números — PIB em queda, taxas de inflação, quantidade de jogadores, migração populacional — há histórias vívidas de resistência, resiliência e escolhas difíceis em tempos de crise econômica.